Resumo rápido: O Fio B não é uma taxa nova que apareceu de repente: é uma parcela da tarifa que quem tem energia solar passou a pagar sobre a energia injetada na rede, em percentuais crescentes definidos pela Lei 14.300/2022. Em 2026 são 60%, em 2027 são 75%, em 2028 são 90% e a partir de 2029 vale a regra definitiva da ANEEL. O detalhe decisivo é este: o percentual trava no ano do pedido de conexão e acompanha aquele sistema pelo resto da vida dele. Ou seja, adiar a instalação não deixa a decisão parada — deixa você em uma faixa pior, de forma permanente. Energia solar continua valendo a pena em 2026; ela só vale um pouco menos a cada janeiro.
O erro de leitura mais comum sobre o Fio B
Boa parte do que se lê por aí trata o Fio B como se fosse um imposto novo criado para punir quem tem energia solar. Não é. O Fio B sempre existiu: é a parcela da TUSD que remunera a infraestrutura de distribuição — postes, cabos, transformadores, manutenção da rede. Todo consumidor brasileiro paga o Fio B embutido na conta de luz sobre a energia que consome.
O que a Lei 14.300/2022 fez foi outra coisa: estabeleceu que quem gera a própria energia e usa a rede como “banco de energia” — injetando de dia, consumindo de noite — também deve pagar por essa infraestrutura. E definiu que essa cobrança entraria de forma gradual, não de uma vez.
É daí que vem o escalonamento. E é o escalonamento, não o Fio B em si, que faz da data da instalação uma decisão financeira.
O escalonamento ano a ano
A lei fixou uma escada de percentuais aplicados sobre o Fio B da energia injetada e compensada:
| Ano do pedido de conexão | Percentual do Fio B |
|---|---|
| Até 07/01/2023 (regra de transição) | Isento até 2045 |
| 2023 | 15% |
| 2024 | 30% |
| 2025 | 45% |
| 2026 (ano vigente) | 60% |
| 2027 | 75% |
| 2028 | 90% |
| 2029 em diante | Regra definitiva (regulamentação ANEEL) |
Duas leituras saem dessa tabela, e a segunda é a que quase ninguém faz.
Leitura 1: a janela mais vantajosa já fechou
Quem protocolou conexão até 7 de janeiro de 2023 ficou na regra de transição e não paga Fio B sobre a energia injetada até 31 de dezembro de 2045. Esse grupo está fechado. Não há como entrar nele hoje, e nenhum vendedor honesto vai prometer o contrário.
Se alguém tentar te vender um sistema dizendo que você ainda pode “travar a isenção da Lei 14.300”, desconfie: essa porta se fechou em janeiro de 2023.
Leitura 2: o seu percentual é travado — e essa é a informação que muda a decisão
O percentual não é recalculado todo ano. Ele é definido pelo ano do seu pedido de conexão e acompanha o seu sistema.
Quem conectar em 2026 fica em 60% pelo resto da vida útil do sistema. Não sobe para 75% em janeiro de 2027, nem para 90% em 2028. Fica em 60%.
E aqui está a consequência prática que raramente é dita: adiar não é uma decisão neutra. Quem posterga de 2026 para 2027 não está “esperando para decidir melhor” — está escolhendo pagar 75% em vez de 60%, todos os meses, por 25 anos. A espera tem um preço, e o preço é permanente.
Sobre o que o Fio B incide (e sobre o que não incide)
Antes de estimar qualquer valor, é preciso ser preciso em dois pontos que costumam ser distorcidos:
O Fio B incide sobre uma parcela da tarifa, não sobre a tarifa cheia. O Fio B é apenas um componente da TUSD, que por sua vez é um componente da tarifa total. Falar que “você vai pagar 60% da conta” é simplesmente falso.
O Fio B incide apenas sobre a energia injetada e compensada. A energia que você gera e consome no mesmo instante — a máquina de lavar rodando às 14h, o ar-condicionado ligado à tarde, a geladeira o dia inteiro — nunca passa pela rede da distribuidora. Sobre ela não há Fio B nenhum, em percentual algum, hoje ou em 2029.
Essa segunda distinção é a mais útil de todas, porque é a única sobre a qual você tem controle depois de instalado. Quanto maior a fatia da geração consumida na hora, menor o efeito do escalonamento sobre a sua conta. É por isso que, com o Fio B subindo, o dimensionamento correto do sistema e o hábito de consumo diurno passaram a valer mais do que valiam em 2022 — e por isso o debate sobre baterias residenciais voltou à mesa, ainda que na maioria das casas a conta da bateria ainda não feche.
Como calcular o efeito na sua conta
Não existe um número único que sirva para todo mundo: o Fio B varia por distribuidora e por revisão tarifária, e o seu perfil de consumo muda o resultado. O que existe é um método honesto para estimar. Pegue a sua fatura e siga estes passos:
- Encontre o valor do Fio B da sua distribuidora. Ele consta na tabela de tarifas homologada pela ANEEL para a sua concessionária, em R$/kWh.
- Estime quanto da sua geração será injetada. Se você consome boa parte da energia durante o dia, essa fatia é menor; se a casa fica vazia até as 19h, ela é maior.
- Multiplique: energia injetada por mês (kWh) × valor do Fio B (R$/kWh) × percentual do seu ano de conexão.
O resultado é a mordida mensal do Fio B no seu caso. Compare com o valor da sua conta hoje e você terá o número real — não uma estimativa genérica de internet.
Uma advertência necessária: desconfie de qualquer simulação que não pergunte a sua distribuidora nem o seu padrão de consumo. Sem esses dois dados, não há como calcular o efeito do Fio B, e o número apresentado é chute.
Se preferir não fazer a conta na mão, a nossa calculadora solar faz a estimativa a partir do seu consumo, e um orçamento com dados da sua distribuidora fecha o cálculo com precisão.
Então ainda vale a pena instalar em 2026?
Vale — e é importante responder isso sem exagero para nenhum dos dois lados.
O Fio B reduziu a economia da energia solar em relação ao cenário de 2022. Isso é fato, e quem diz que “não mudou nada” está vendendo. Mas ele não eliminou a economia: incide sobre uma parcela da tarifa, e apenas sobre a energia compensada. Na maior parte dos perfis de consumo residencial e comercial brasileiro, o sistema continua se pagando com folga dentro da sua vida útil.
O que realmente mudou foi a direção do tempo. Até 2022, esperar era mais ou menos indiferente: os equipamentos ficavam mais baratos a cada ano e isso compensava. De 2023 em diante, cada ano de espera trava um percentual pior — e trava para sempre. A queda de preço dos módulos precisa agora compensar não só a inflação, mas também 15 pontos percentuais a mais de Fio B ao ano.
Para quem já decidiu instalar e está apenas escolhendo o momento, a conclusão é direta: o momento é antes do próximo 1º de janeiro.
Um detalhe de prazo que decide a sua faixa
O que define o seu percentual é a data do pedido de conexão protocolado na distribuidora — não a data em que o instalador termina o serviço, nem a data em que você assina o contrato.
Entre a decisão e o protocolo existe um caminho: projeto elétrico, documentação, envio à concessionária. E a distribuidora tem prazos próprios de análise, que podem incluir pedidos de correção. Uma pendência boba de documento é suficiente para empurrar o protocolo de dezembro para janeiro — e, com ele, a sua faixa inteira.
Por isso, quem quer fechar o ano na faixa vigente não deveria começar em novembro. Deveria começar com folga suficiente para absorver um atraso da concessionária sem perder o ano.
Perguntas Frequentes
O que é o Fio B na conta de luz?
O Fio B é a parcela da TUSD (Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição) que remunera a rede de distribuição — os postes, cabos e transformadores que levam a energia até o seu imóvel. Todo consumidor sempre pagou o Fio B sobre a energia que consome da distribuidora. O que a Lei 14.300/2022 mudou foi que quem tem geração própria passou a pagar essa parcela também sobre a energia que injeta na rede e depois compensa, em percentuais que sobem ano a ano.
Qual é o percentual do Fio B em 2026?
Em 2026 o percentual é de 60% do Fio B aplicado sobre a energia injetada e compensada. O escalonamento definido pela Lei 14.300/2022 segue 75% em 2027 e 90% em 2028. A partir de 2029 passa a valer a regra definitiva de valoração das componentes tarifárias, a ser regulamentada pela ANEEL.
O percentual do Fio B aumenta depois que eu instalo?
Não. O percentual é definido pelo ano em que o pedido de conexão é protocolado junto à distribuidora e acompanha aquele sistema — ele não é recalculado a cada janeiro. É por isso que a data da conexão importa tanto: quem entra em 2026 fica na faixa de 2026; quem entra em 2027 fica na faixa de 2027, para o resto da vida do sistema.
Quem instalou antes de janeiro de 2023 paga Fio B?
Não. Quem protocolou o pedido de conexão até 7 de janeiro de 2023 entrou na regra de transição da Lei 14.300 e mantém as condições anteriores de compensação, sem pagar o Fio B sobre a energia injetada, até 31 de dezembro de 2045. Esse direito adquirido está encerrado: não é mais possível entrar nele.
O Fio B é cobrado sobre toda a energia que eu gero?
Não. Ele incide apenas sobre a energia que você injeta na rede e depois compensa em outro momento. A energia que você gera e consome na hora, direto no seu imóvel, não passa pela rede da distribuidora e por isso não paga Fio B nenhum. Essa distinção é o que torna o consumo diurno e o autoconsumo cada vez mais valiosos conforme o percentual sobe.
Ainda vale a pena instalar energia solar em 2026?
Sim, na esmagadora maioria dos casos. O Fio B reduz a economia em relação ao que era possível em 2022, mas não a elimina: ele incide sobre uma parcela da tarifa, não sobre a tarifa inteira, e apenas sobre a energia compensada. O sistema continua se pagando dentro da sua vida útil na maior parte dos perfis de consumo. O que mudou é que cada ano de espera piora um pouco o retorno, em vez de melhorá-lo.
Adiantar a instalação para dezembro garante o percentual do ano?
O que conta é a data do pedido de conexão protocolado na distribuidora, não a data em que o instalador termina o serviço. Como o processo envolve projeto, homologação e prazos da concessionária, deixar para dezembro é arriscado: qualquer pendência de documentação pode empurrar o protocolo para janeiro e mudar a sua faixa. Se a intenção é fechar o ano na faixa vigente, o processo precisa começar com folga.
O que muda a partir de 2029?
A partir de 2029 termina o escalonamento previsto em lei e passa a valer a regra definitiva, que deve considerar a valoração de todas as componentes tarifárias, conforme regulamentação da ANEEL. Os sistemas conectados durante o escalonamento mantêm o percentual do seu ano de conexão — o novo modelo se aplica a quem entrar depois.
O que fazer agora
Se você está avaliando energia solar, a sequência mais racional em 2026 é esta:
- Descubra o valor do Fio B da sua distribuidora e estime a mordida real no seu caso, com os três passos descritos acima.
- Dimensione o sistema pensando no seu padrão de consumo, não só no total mensal — quanto mais você consome durante o dia, menos o escalonamento te afeta. Nosso guia de energia solar residencial detalha esse ponto.
- Comece o processo com folga em relação ao fim do ano, para que um atraso da concessionária não custe a sua faixa.
E se quiser pular direto para números do seu caso — com a sua distribuidora, o seu consumo e o percentual do ano vigente —, peça um orçamento sem compromisso. A conta do Fio B só faz sentido com os seus dados na frente.
Sobre o autor: Nicolas Vargas
Nicolas Vargas escreve sobre energia solar fotovoltaica no Brasil para a OPS Energia Solar, com foco em dimensionamento de sistemas, custos de instalação, financiamento e no impacto prático da Lei 14.300/2022 na conta de luz do consumidor.